16 de out de 2018

EXPO MILLOR FERNANDES NO CCLA, EM 2012





Millôr Fernandes, uma breve  retrospectiva

Capturar o alma do artista Millôr Fernandes (1923-2012), carioca do Méier,  é  um problema para  qualquer curador. Ele próprio não via com simpatias esta palavra, preferia a denominação de jornalista.  Dizia que tudo que produziu na vida, excetuando uma  ou duas coisas,  foi por encomenda, e se insere na indústria cultural. Embora  muita coisa do que produziu possa  ser considerada arte, como o desenho, teatro, poesia, crônicas, achava que isto tudo  caberia no guarda-chuva  chamado jornalismo. Professava que nestes suportes todos o que mais fez foi interpretar o mundo em que viveu, mais precisamente o homem. Não por acaso uma destas atividades, por incrível que pareça, foi na canção popular, chegando a participar inclusive do célebre  Festival de Música da  Record (1966), em que A Banda e Disparada se sagraram vencedoras.  Fez a música e a letra de O homem,  o que corrobora a idéia de que a humanidade escorre por seus desenhos e textos.

O cineasta Walter Salles num dos prefácios de livros, o considera  renascentista,  pois  foi   um homem que entendeu seu tempo, participou de quase todo tipo de iniciativa cultural, midiática vamos dizer assim. Para Salles, Millôr  criou diálogos insuperáveis para o filme Terra Estrangeira,  como  também já tinha   produzido roteiros de filmes a partir dos anos 1960. Apresentou programas de televisão, na incipiente TV dos anos 1950, como o Lições de um ignorante, onde foi até censurado por JK.  Nos anos 1960 participou do Jornal de Vanguarda, importante programa de TV, que marcou época. Nas revistas O Cruzeiro e A Cigarra, escreveu reportagens, fez colunas de humor, copidescou, diagramou e traduziu. Chegou  a revista O Cruzeiro ainda rapazinho, quando ela tinha  apenas dois funcionários, um diretor e mais ele próprio. Ajudou a catapultá-la para o posto de  principal mídia impressa daqueles tempos.

No teatro também foi um homem que atuou  profundamente, a partir de uma encomenda que  teve em 1950. Escreveu mais de  cem peças, uma das primeiras, que mais fez sucesso,  foi  Um elefante no caos. Adaptou  Vidigal: Memórias de um sargento de milícias (1982), da célebre obra de nossa literatura.  Criou peças com monólogos, com vários personagens, e  espetáculos como Liberdade Liberdade (1966), em parceria com Flávio Rangel. Também escreveu shows musicais, como Bons Tempos, Hein!? (1979), para o MPB 4; e De repente (1985), para Arthur Moreira Lima. Alem de tudo isto ainda traduziu dezenas de peças, que fizeram enorme sucesso e  alimentaram nosso teatro por décadas,  trabalhos estes que  são considerados pela critica como de  alto nível.

Como cartunista,  foi um dos mais pródigos. Primeiro começou assinando como Vâo Gogo, pseudônimo que depois abandonou, assumindo com o próprio nome. Paulo Francis dizia que Millôr confessou-lhe que começou a usar este pseudônimo porque queria guardar seu nome real para atividades artísticas mais “nobres”, como por exemplo  teatro. Mas a partir de um certo momento mudou de idéia e assumiu  com seu próprio nome os desenhos e textos em geral. Na área de humor achava que ninguém poderia  desenhar no século XX sem conhecer Picasso e Saul Steinberg, este último considerava o maior artista desse século. Seu traço  visivelmente influenciado pelos gênios acima citados, evoluiu a partir dos anos 1960 para patamares raramente vistos em nosso país e no mundo todo. Teve seu desenho publicado em  grande parte das iniciativas culturais de seu tempo. Foi muito influenciado pelas histórias em quadrinhos americanas, tendo sido inclusive tradutor e letrista dos suplementos, que ajudaram a implantar no Brasil a linguagem americana, com personagens do tipo Flash Gordon e Fantasma. Esta influência carregou por toda a vida, sendo que nos seus trabalhos as tiras e os quadrinhos estiveram  muito próximos.
Nas suas colunas de humor, vamos chamar assim, já que são em si indefiníveis, explorou  quase todas as formas de texto: pastiche, paródia, poesia, teatro, fábulas, aforismos, máximas, anedotas, contos, traduções criativas ou mesmo trocadilhos. Dentro de suas seções havia sub-seções, que se repetiam por anos. Teatro Corisco foi uma micro peça, de poucas linhas,  que  durou anos em O Pif-Paf.  Também sobre a rubrica de Hai-Kai publicava  este tipo de poesia oriental,  com um  estilo mais engraçado. Dicionavario era uma maneira engraçada de dar outro sentido aos verbetes do dicionário.  Fábulas Fabulosas, neste caso ele virava um Esopo moderno  e “deturpava”  a forma desta clássica  narrativa moralista.

Nos textos de Compozissões Infantis, diz no  livro Trinta anos de mim mesmo (1972), que abstraía-se do adulto  e escrevia como uma criança. Estas colunetas permaneceram por anos  em O Cruzeiro, como peças de humor de alta qualidade. Sem falar no também indefinível  Lope-Lopes, tipo de humor que reinventou, que nem  sabe mesmo dizer como é, talvez um insight. Um dos obituaristas, que escreveu  sobre Millôr, deitando elogios ao mestre,  diz que   usou todas as formas literárias, mas que nunca tentou  algo de maior  fôlego, como o romance. Isto é verdade, tudo o que escreveu ou criou foi para ser publicado ou encenado em seu tempo. Muito natural,  pois um romance não poderia ser publicado  na imprensa periódica, neste sentido foi muito coerente, pois sempre se considerou um jornalista e não um escritor.

Na imprensa  atuou como escritor e desenhista, e até como editor, como foram os casos de O Pasquim (1969) e Pif Paf  (1964).  Suas seções de humor eram tão marcantes que elas próprias pareciam-se como órgãos independentes dentro da revista. Foi  assim com O Pif-Paf, de página dupla dentro de O Cruzeiro entre 1945 e 1963;  e também da página dupla Millôr, nas  páginas amarelas de Veja, de  1968 até 1982. As  melhores iniciativas da  área de jornalismo e humor impressos também contaram com seu nome nos cabeçalhos e  sumários. Botem aí O CruzeiroA Cigarra, Voga, Senhor, Piif Paf, Veja, RealidadeFairplay, O Pasquim, Isto É, República e chegando até a Piauí. Com seu hábil humor dizia que um sujeito que escreve é considerado escritor, o que faz garatujas  desenhista. Mas  dizia  não haver  denominação para quem fazia as duas coisas. Realmente, Millôr  assim como os grandes artistas multimídias é indefinível.

Esta exposição apresenta algumas reproduções, como também documentos  originais, impressos, que este que vos fala reuniu pela vida toda. Posso dizer que cresci lendo e ouvindo Millôr, como  pode ser visto. A partir de um certo momento de sua carreira naveguei com ele em seus textos e desenhos. Chegando até os dias de hoje, em revistas de circulação nacional, onde colaborou até onde sua saúde permitiu. Alem de impressos mais antigos também temos suas últimas colaborações para a imprensa periódica, como por exemplo República, Piauí e Veja.

  
                                    JOÃO ANTONIO BUHRER DE ALMEIDA [jornalista]