16 de ago de 2013

TURMA DO BARULHO: UM FURACÃO QUE CHACOALHOU AS HQ INFANTIS

TENTOU-SE DE TUDO

Turma da Fofura, Os Trapalhões, Fofão, TV Colosso, Menino Maluquinho, Senninha... durante dez anos, foram inúmeras as tentativas da Editora Abril de substituir os personagens de Maurício de Sousa. Afinal, ao sair da casa em 1987, Maurício não só levou suas criações para a Editora Globo, como também seu enorme faturamento em bancas. E abriu um buraco nas finanças da editora.
Para os quadrinhistas foi excelente, pois abriu espaço para que eles mostrassem suas criações.
Isso encorajou o desenhista Jótah em parceria com a produtora e colorista Sany (experts em desenhos infantis, tendo participado com animações para o programa Rá-Tim-Bum da TV Cultura, revistas da LBV, ilustracões para livros didáticos e jogos infantis) a entregar em 1993, um projeto de uma nova hq para a Abril. E acabou engrossando a fila de candidatos à vaga de Maurício na casa.

UMA EXPLOSÃO NAS BANCAS



E assim, no mês de abril de 1996, chegou às  bancas o primeiro número da TURMA DO BARULHO,  a mais ousada, irreverente, anárquica e divertida hq infantil (ou pré-adolescente) já criada no Brasil. Uma ousadia que, comparando, fez com que as outras hqs infantis parecessem histórias da carochinha. Talvez por isso seu projeto tenha ficado 4 anos nas gavetas do Grupo Abril. Foi a última tentativa da Abril Jovem com hqs nacionais. Tinha 32 páginas coloridas e saiu com tiragem de 30 mil exemplares.

As histórias giravam em torno do dia-a-dia de uma turma na escola, só que mostradas por outro ângulo, poucas vezes adotado pelas hqs infantis. A gíria, o palavrão, a pixação nos muros, o costume de “matar aula e colar na prova, o builling sofrido e também praticado,  a turma do fundão, o piercing, o “pum” em sala de aula, o "te pego lá fora", as brigas e rixas entre turmas, a paixão por video games, a loira do banheiro. Enfim, tudo de bom ou ruim que fez e faz parte da infância de qualquer criança estava lá, com muito bom humor.
Jótah teve a coragem de não só mostrar o universo lúdico da criança, mas também o seu lado mais humano, sarcástico, rebelde. Qual criança na vida nunca caçoou de outra ou mesmo falou um palavrão? 

  A TURMA DO BARULHO: da esquerda para a direita: Bob, Tóbi,
Carol, Kid Bestão, Milu e Babi
 
ADOLESCENTES AOS 10 ANOS
 
Os personagens da TURMA DO BARULHO tinham os hormônios à flor da pele e refletiam uma geração que entrava na adolescência mais cedo.
Várias situações foram criadas nas histórias para mostrar o comportamento dessa nova geração. Duas meninas (Milu e Babi) já estão querendo namorar e se apaixonam perdidamente por qualquer representante do sexo masculino. Os meninos espiam as mulheres se trocando ou tomando banho, e até se atrevem a dar uma espiada por debaixo da mesa, na cor da calcinha da professora. Travessuras de criança que já despertam para a sexualidade.

— ISSO NÃO ACONTECE COM A TURMA DAS OUTRAS REVISTAS!!
Raphael Vieira, 9 anos, sobre as histórias se passarem quase todas dentro da escola.

Espiar a menina tomando banho...

ou namoricos que iam além da mãozinha dada...os personagens da Turma do Barulho não eram assexuados. 

A PRODUÇÃO

Para dar conta da produção das hqs, Jótah montou um estudio na Rua Direita, no centro de São Paulo e reuniu um time  de artistas vindos em sua maioria da animação.
Enrique Valdez e Rosana Valin (hoje nos estúdios MSP), Jarbas Valin, Tomaz Edson, Jean Okada, Nelson Lima e Paulo Santos, formavam a equipe que produzia o gibi. Para compor um visual moderno e diferente do habitual, seus artistas empregaram uma diagramação que valorizava as cenas soltas, algumas sem requadro e cores contrastantes.

 Colocar ou não um brinquinho? Era um dilema da nova geração...

Do desenhista JEAN OKADA, autor do album Kário, dívida de sangue,
sobre a Turma do Barulho:


Participar do gibi da Turma do Barulho foi uma experiência incrível. Nessa revista pude realizar meu sonho de participar de uma publicação mensal, ver nas bancas um trabalho em que eu colaborava... Foi também um gibi onde cada um dos colaboradores colocou muito de si no projeto, pois a Turma nos fazia trazer à tona muito de nossas experiências pessoais, com amigos de infância e da escola, pra colocarmos tudo nas histórias que fazíamos. Acho que conseguimos quebrar algumas barreiras e fizemos um gibi infantil bem ousado. Fomos o mais longe que nos permitiram ir. Sou muito grato ao Jótah por essa grande oportunidade!





O LANÇAMENTO

O lançamento do primeiro número foi tumultuado. Uma troca repentina do papel inicialmente pensando para a impressão do gibi, fez com que os tons de pele de todos os personagens ficassem muito escuros, quase negros. Realmente, a cor de pele escolhida seria mais morena, porém, para um papel de melhor qualidade. Isso só pode ser consertado no número 3, quando adotou-se uma tonalidade mais clara.
A capa foi mudada diversas vezes ate chegar a sua versao final. Houve uma certa censura por parte da editora, principalmente no linguajar dos personagens, pois temiam chocar o publico. Mesmo assim era comum encontrar expressões como bunda, mijão, boiola, nomes que até hoje só aparecem nos quadrinhos da MAD. 

 A partir dessa edição, a tonalidade da pele dos personagens ficou mais clara,
para se adequar à impressão no papel jornal. Compare com a capa do número 1,
no início da matéria.

Para promover a revista, o estudio produziu, com recurso próprios, um comercial animado, que foi veiculado no sul do país.
A TV Globo noticiou o lançamento, inclusive com uma entrevista com seu criador, feita pela jornalista Sandra Annemberg.
Foram destaque no Festival Internacional de Quadrinhos do HQ MIX, ocorrido no Sesc Pompeia. Ao lado da Turma da Mônica, Senninha e dos personagens do Cartoon Network,  a Turma do Barulho apareceu no telão em um video clip ao som de uma banda de rock.

— ELES USAM UM VOCABULÁRIO IGUAL AO NOSSO!!
Luíza Ramos, 9 anos

Esportes radicais como o skate, eram os preferidos da turminha.


Do desenhista TOMAZ EDSON , dono do Estúdio Gibiosfera
sobre a Turma do Barulho:


Fui indicado pelo Enrique Valdez e, acabei produzindo letras e balões.
O Jota alugou uma sala comercial enorme em um velho edifício na Rua Direita. Era quase um andar inteiro e tinha pé direito duplo. Muito legal.
Quando li a primeira história e percebi que os roteiros e desenhos tinham outro pique de humor que não estamos acostumados a ver em edições infanto juvenis pensei: "Duvido que a Editora Abril vai publicar essa turma com toda aquela preocupação de politicamente correto e bláblábla´... "
Enfim, o fato é que o Jota conseguiu um contrato, marcou época e ganhou uma legião de fãs.
Uma curiosidade técnica: lembro que boa parte dos profissionais que lá trabalharam vieram da animação e você sabe que animador de formação, via de regra, tem uma dificuldade enorme em produzir quadrinhos e adequar os seus desenhos ao formato impresso. Isso não ocorreu na Turma do Barulho porque o Jota soube muito bem dirigir o pessoal e padronizar os diferentes traços e estilos dos desenhistas sem que para isso os desenhos virassem carimbinhos.
Enfim, foi uma época que me traz boas recordações que fazem parte de minha vida e meu portfólio.


 Nessa história publicada no número 1, Babi coloca um sutiã da irmã e já se acha
uma mocinha...


— AS OUTRAS REVISTAS SÃO MUITO INFANTIS, POIS NÃO TEM PALAVRÕES!!!!
Flávio Pecelli, 10 anos

A Folhinha de São Paulo destinou a capa e mais quatro páginas para falar sobre a nova turminha das bancas. O jornalista Thales de Menezes fez uma bela materia sobre o lançamento e a equipe da Folhinha levou o gibi para apreciação dos alunos do Colégio Augusto Laranja em São Paulo. As crianças opinaram e gostaram principalmente da linguagem do gibi, mais próxima da sua realidade, do dia-a-dia na escola, com suas aprontações, paqueras e aventuras. O pequeno estudio da Rua Direita passou a receber cartas do Brasil inteiro. A Turma do Barulho conquistava uma boa parcela do publico infantil.
Cautelosamente, Jótah deixou para fazer o lançamento oficial da revista só no número 5, periodo em que já se pode saber se o título “pegou”ou não. Em um pequeno espaço da livraria Melhoramentos, mais de trezentas pessoas, entre artistas de hqs, e publico em geral, se acotovelavam para folhear a revista e saber o que a turma estaria aprontando nessa nova edição. Um sucesso! Teve até apresentação do coral da LBV. Isso foi no domingo.

 Capa da FOLHINHA DE SÃO PAULO, com matéria especial sobre a TURMA


E DEPOIS, O SILÊNCIO…

No dia seguinte a revista foi cancelada. A Abril Jovem já estava em crise, o que resultou no seu fechamento no ano seguinte, quando voltou a ser um departamento dentro do grupo. Muitos títulos foram cancelados e a Turma do Barulho foi junto. O motivo alegado foram as baixas vendas.
Jótah colocou um advogado para verificar o que havia de encalhe nos depósitos. Ele foi e retornou dizendo: 
 —Desculpe, não posso pegar o seu caso!
Da empresa Character que cuidaria do possível licenciamento dos personagens veio a seguinte resposta:   
—“Você está mexendo com gente grande. É só o que eu posso dizer…
O que realmente aconteceu com um título que despontava para o sucesso e repentinamente foi cancelado, não se sabe.
Seus personagens ainda tiveram uma sobrevida, através da pequena Editora Press, de Sérgio e José Guimarães. Com a coordenação e edição de Carlos Mann, o título foi relançado durante o ano de 1997, com um total de seis edições.
Jótah continuou a sua carreira e hoje é um dos maiores ilustradores do Brasil, além de ter também vários livros de sua autoria.

 Capa do primeiro número da TURMA DO BARULHO pela Editora PRESS.



— ESSA REVISTA É BEM PARECIDA COM A VIDA REAL!!!
Thiago Nanini, 9 anos
 As histórias também focavam em temas polêmicos, como por exemplo, fumar na adolescência, sempre mostrando o que era legal e o que não era.

E assim A TURMA DO BARULHO veio, chacoalhou o mercado de quadrinhos,  teve boa aceitação de publico, causou indignação, revolta e admiração em muita gente, e como um cometa passou rapidamente  e desapareceu. Dificilmente é mencionada em premiações ou mesmo em publicações que tratam da história da hq brasileira.

Curiosamente na mesma época, a banda Mamonas Assassinas, causava a mesma indignação ao fazer crianças e jovens de todo o Brasil  cantarem frases como “Oh Maria, essa suruba me excita”. Sua curtíssima carreira terminou quando um acidente aéreo matou todos os seus integrantes. E tal e qual o gibi também marcou época. Os dois, o grupo musical e o gibi tinham um único propósito: DIVERTIR!
 


O mundo estava mudando, mas a mídia foi perceber isso algum tempo depois.

Hoje, alguns quadrinhos já dialogam com uma nova criança, antenada, conectada com o mundo…
Um “pequeno adulto”, como bem disse Maurício de Sousa, em entrevista a Fernando Vives da revista Carta Capital.
A Turma do Barulho sacou tudo isso lá em 1996. 
Com  uma visao mais sarcástica e bem humorada, trouxe para as bancas a galera que está aí hoje.
Uma pena, porque... 
...talvez fosse cedo demais.




Ficou curioso e quer ler os quadrinhos da TURMA DO BARULHO?
Procure nesses endereços…pode ser que você encontre uma ou mais edições.

http://www.maniadegibi.com/loja/
http://www.guiadosquadrinhos.com/ 
http://www.mercadolivre.com.br

PARA CONHECER MAIS SOBRE JÓTAH, O CRIADOR DA TURMA DO BARULHO:
http://www.biografiajotahautorilustrador.blogspot.com.br/

BIBLIOGRAFIA E AGRADECIMENTOS:

• Capa do número 1, restaurada pelo fã Felipe S. Borges.
• Trechos de entrevistas realizadas pelos jornalistas Thales de Menezes e Maristella do Valle para a Folhinha de São Paulo, edição 1706, de 10 de maio de 1996.
• www.tonyfernandespegasus.blogspot.com
• acervo.folha.com.br